terça-feira, 3 de maio de 2011

Por uma história econômica de Bela Cruz: algumas experiências

A implementação do Projeto Apicultura na economia belacruzense

           
A prática de apicultura no mercado cearense, assim consideramos, é consolidada em 2004 como terceiro maior exportador nacional, onde o nordeste ocupa a segunda posição, perdendo apenas para o Piauí em produção e comercialização. Segundo Jose Gadelha Vandi Gadelha (Engenheiro Agrônomo e gestor estadual do projeto APIS) esse desenvolvimento é resultado das mudanças no processo de produção e inserção do mel brasileiro no mercado externo.
O município de Bela Cruz, apresentando como principal fonte de renda e produção a castanha do caju e a carnaúba, faz implementação com o projeto da apicultura com o objetivo de aumentar a renda da população carente. Tendo-se em mente que o Ceará é uma região que necessita de constantes mudanças, consistentes no que se refere à economia e melhorias sociais. O respectivo projeto que esta em vigor no Município desde 2007, segundo dados da Secretaria de Agronegócios do Município de Bela Cruz apresenta modificações na renda das famílias de Bela Cruz através da produção e comercialização.
Segundo profissionais da Secretaria de Agronegócios citada, a prática de apicultura beneficia as camadas mais carentes da sociedade onde alguns agricultores recebem através dos cursos de formação materiais no valor de R$ 1.800,00 (mil e oitocentos reais), além de um recurso próprio que incluem a Casa do Mel para as localidades onde estão sendo realizados os cursos para a produção do gênero alimentício que, também existe na Sede do Município e em algumas localidades. O que através da pesquisa com a oralidade, e fotografias podemos compreender como se apresenta o Projeto, o qual já tem cinco anos de existência, que, segundo Andreilson Ferreira da Silva (Agente rural e instrutor do projeto apicultura) o mesmo não se apresenta como uma constante no cenário da renda belacruzense surgindo alguns problemas na produção por parte dos apicultores onde os mesmos não têm a preocupação da sustentabilidade da produção e comercialização, tanto por parte dos apicultores como os demais setores sociais. O que ocasiona de certa forma o não destacamento da produção e exportação do mel no município, que é comercializado entre apicultor e Prefeitura, sendo distribuído nas escolas municipais.
Contudo acontece o destacamento, no Município, de alguns produtores como é o caso do senhor Valdemar Morais (Bela Cruz) o qual apresenta uma boa produção, no entanto é dificultosa a comercialização do produto. Segundo relatos de alguns produtores na localidade (São Gonçalo) a demora no processo de comercialização foi uma das causas para a instabilidade do Projeto Apicultura, contudo observa-se que a produção ainda ‘existe em pequenas ramificações, onde a renda beneficia apenas a família que resistiram as aprovações.
 O desinteresse dos apicultores segundo o senhor Orimar Moreira que o definiu como a “cultura do lugar, por não saber trabalhar em associação comunitária”, e por esse motivo desarticulou o bom resultado do Projeto que, no entanto é uma opção ótima para ser desenvolvida a economia de Bela Cruz sendo necessário outro pensamento por parte dos apicultores.
 Tal relato está de acordo com o que Gadelha que afirma que a manutenção e crescimento do setor e sua sustentabilidade dependem da superação de desafios existentes que são: organização dos apicultores para a atuação de forma associativa, como aumentar a produtividade e conseqüentemente visualizar o mecanismo de vendas no comercio. O que se percebe que se necessita, de uma mudança de idéias já existentes, que se forjam tendo como base o pressuposto citado pelo Sr. Orimar de “cultura local”, uma reflexão e visão do conhecimento para uma melhor organização comercial e produtiva.
          Contudo através das análises nota-se que o projeto não teve um sobressalto na produção e comercialização, o que ocasionou de certa forma o não aproveitamento do produto que poderia ser utilizado como uma renda fortificada como a exportação e produção na cidade de Bela Cruz. No entanto esta situação pode ser modificada partindo das figuras produtoras ainda existentes, como a efetivação dos programas oferecidos pelo município. Uma maior difusão de tais projetos que beneficiam ao povo que ainda aparecem alheios a tais inovações e modificação no cenário social que beneficiam a grande massa popular.

sábado, 30 de abril de 2011

Memórias fotográficas da cidade de Bela Cruz (Religiosidade/Fase II)

Memórias fotográficas da cidade de Bela Cruz (Religiosidade/Fase I)







Museu Emílio Fonteles



 Museu Emílio Fonteles

O estudo da localidade ou da história regional contribui para uma compreensão múltipla da história, pelo menos em dois sentidos: na possibilidade de se ver mais de um eixo histórico na história local e na possibilidade da análise de micro-histórias, pertencente a alguma outra história que englobe, e ao mesmo tempo, reconheça suas particularidades. (SCHMIDT, [Et. Al.], 2004, p. 113)

O estudo da História Local, enquanto proposta teórico-metodológica e política apresenta-se como possibilidade para a redefinição dos valores e práticas pedagógicas e de aprendizado do ensino de História. Neste sentido, apresentamos ao longo desta proposta narrativa uma discussão sobre o Museu Emílio Fonteles como instrumento para o (re)conhecimento das muitas memórias e outras histórias da cidade de Bela Cruz.
O espaço museológico, entendido como fórum, como lugar que deve permitir o transito de memórias, que viabilize a construção de identidades a partir dos pertencimentos possíveis de serem traçados, muito bem se apresenta como um campo importante para o fazer historiográfico, assim como, para uma discussão sobre a História enquanto disciplina, assim como sobre a história cotidiana numa perspectiva microscópica.
Neste sentido o Museu Emílio Fonteles, visitado a partir de seu acervo fotográfico que representam tempos históricos diversos da cidade, periódicos, cartas, e peças diversas sobre as peculiaridades culturais que representam a região, foi se faz importante para o reconhecimento da atuação de sujeitos históricos que atuaram na construção da cidade.
 Atualmente situado à Rua Professor Nicácio, no centro da cidade de Bela Cruz, onde se localizava a antiga Casa Paroquial, o museu Emilio Fonteles encontra-se em boa localização e disponível a visitação nos turnos manhã, tarde e noite contando com profissionais conhecedores do material exposto, engajados na proposta de orientação para a efetiva contribuição para o levantamento de questões sobre a história local a partir do seu acervo.
O espaço museológico referido, após considerável tempo desativado para a realização de uma reforma predial para melhor atender o público, expor e preservar ser acervo, recentemente foi reinaugurado, e hoje conta com visitação média mensal de 500 pessoas.
Diante das pesquisas e visitações realizadas, foi possível perceber que o Museu ainda não é muito procurado por grupos escolares, o que, assim consideramos, é reflexo das propostas de ensino de história há muito vinculadas à história positivista, que tende a privilegiar a atuação de personagens tidos como importantes, e que, de certa forma não tende a privilegiar a história local, de personagens anônimos, de uma história problema.
O museu foi intitulado Emilio Fonteles por este ser um representante do povo, reconhecido popularmente como líder comunitário, pessoa muito admirada na época por sua atitude perante a sociedade, este não era um líder político, pois, quando de sua atuação político-social, Bela Cruz não era ainda Município.
Em suma o museu permite um contato com a história viva do município, onde os belacruzenses podem sentir e viver um pouquinho do que seus antepassados construíram, podendo assim observar o que se edificou ao longo do tempo, assim como perceber que continuam presentes em nosso meio através desta exposição à sociedade.




O Sertão como lugar da seca? Enchentes na cidade de Bela Cruz no período de 1963 a 2009


Enchentes da cidade de Bela Cruz no período de 1963 a 2009

O Estado do Ceará desde muito tempo é vitima das precipitações pluviométricas climáticas. Os invernos desordenados geram para a população um grande problema, as populações que residem nas proximidades dos rios acabam sendo desabrigadas, além de outros prejuízos.
Bela Cruz, localizada no interior do Estado, nas proximidades do rio Acaraú, já passou por muitos anos de cheias, em que os moradores tiveram suas plantações perdidas, casas alagadas, algumas destruídas, sendo a maioria desabrigada, ou seja, tempo de grande sofrimento.
A cada ano no período de inverno, logo se tem uma preocupação, o número de moradores nas áreas ribeirinhas tem aumentado e consequentemente cada ano de cheia os prejuízos são maiores. Em contato com a população atingida, onde realizamos entrevistas com personagens afligidos pelas cheias, podemos compreender que o acesso às terras nessa área era facilitado por terem um custo menor. A partir de então os terrenos foram sendo ocupados e hoje há um grande número de casas.
Sabemos que essa localização é inadequada, que a maioria das pessoas entrevistadas nessa afirmam não sair do local por não possuir condições financeiras para residirem em outras áreas da Cidade.
Queremos com essa pesquisa, oportunizar uma possibilidade de leitura, a partir de uma discussão histórica sobre as experiências e sofrimentos das famílias que são, ou foram, ao longo do tempo, atingidas pelas cheias, além de, desejamos, facilitar o acesso à temática para que assim a mesma seja acessada e tornada pauta das discussões sobre as políticas de ocupação desordenada no Município. As autoridades locais desde muito tempo têm conhecimento dessa problemática, e ainda assim nada fazem para solucionar o problema.
A partir da pesquisa, tomamos conhecimento de que a construção de algumas casas (34 terminadas e mais 30 em construção) foram cedidas para algumas famílias desabrigadas pelas cheias das ultimas cheias. Porém é possível indicar que esse número ainda é muito pequeno frente à quantidade de moradias irregulares. E que essas novas moradias não foram exclusivamente direcionadas as pessoas que perderam suas casas na época das cheias.
Contudo para a elaboração desse trabalho, definimos como tempo referencial o ano de 1963, mesmo sabendo que nos anos anteriores também tenha havido outras enchentes que afetaram a população belacruzense, escolhemos esse ano como marco inicial de nossa pesquisa, tendo em vista a dificuldade que seria alongar os estudos referentes a essa temática.
Contado com a memória dos cidadãos belacruzenses, é que construiremos caminhos para remontar nossas historia. Todos os entrevistados foram pessoas atingidas pela cheia, em sua maioria desabrigada, serão confrontados os depoimentos para compreendermos o que representa esse período na história belacruzense.
Como conta os registros no ano de 1963 houve uma cheia após transbordar o Rio Acaraú, sendo todas as cidades banhadas pelo mesmo rio atingidas pelas águas. Bela Cruz assim como as outras cidades foi bastante prejudicada, aproximadamente 23 casas caíram, não contando mortos nem feridos apenas desabrigados.
Em contato com a população atingida ouvimos os mais variados depoimentos, pessoas que passaram fome, que perderam suas casas, plantações, em fim grandes prejuízos. Em nota (ARAUJO, 1990) “o governo atendendo ao apelo das autoridades locais... mandou indenizar os prejuízos sofridos”. Porém, as pessoas entrevistadas afirmam não terem sidos beneficiados, muito menos indenizados por perdas, apenas retirados e abrigados em outros locais públicos.
No ano seguinte, em 1964, mais uma vez a área ribeirinha é atingida pelas águas sendo inundada algumas ruas de Bela cruz deixando muitas pessoas desabrigadas. Nessa época segunda contagem a cidade tinha 3.179 habilitantes na zona urbana e 9.830 na zona rural. Consta que 11 casas desabaram além de outros prédios, embora tenha havido prejuízos e a população sofrido com o alagamento de suas casas, as moradias nessa época ainda eram inferior em relação aos dias atuais.
Seguindo o ritmo do inverno rigoroso da década de 60, o ano de 1965 foi também ano de cheia mais uma vez afetando as cidades próximas aos rios. Nesse mesmo ano, frente aos prejuízos existentes o governo repassa segundo ARAUJO (1990) “uma quantidade apreciável de gêneros alimentícios para os flagelados da enchente na cidade de Bela Cruz”.
Não sendo a intenção superficializar esse período referente à década de 60, mas as pessoas entrevistas não nos forneceram muitas informações além de relatarem suas histórias de sofrimento, necessidades financeiras e perdas. Em contato com a obra Cronologia de Bela cruz, podemos ter uma noção resumida do que aconteceu na época e levando ate a população tivemos alguns retornos, muito embora no que se refere as ajudas e repasses de autoridades públicas a maioria afirmaram que não foram beneficiados nem indenizados por perdas.
Após uma década é chegada a vez de mais uma cheia transbordando o rio Acaraú e atingindo a cidade de Bela Cruz, o ano de 1974 foi considerado a maior enchente do período estudado, as perdas foram de maior proporção, pois a população da área ribeirinha vinha aumentando, tendo assim maior número de desabrigados.
Mesmo sem contar mortos, nem feridos, os prejuízos foram enormes. O senhor Francisco Marinho de Andrade, 82 anos, morador da Rua Nicolau Peixoto, uma das áreas atingidas, nos conta que passou a residir no local desde 1970 e quatro anos depois é atingido pela maior cheia. Com 14 filhos conta que as dificuldades eram imensas e que mesmo com muita água não chegou a sair de casa, os filhos e esposa foram para casa de parentes, mas ele ficou. O mesmo ainda afirma que varias casas vizinhas desabaram e era o que ele mais temia que acontecesse, conta ainda que as autoridades da época pouco faziam para ajudar os flagelados.
O Sr. Francisco diz ter passado muita necessidade e que ao chegar ao local de repasse das doações que o governo mandava para cada cidade, afirma ter recebido 100g de carne de charque e 250g de açúcar, enquanto as pessoas que não tinham necessidades, entre eles as próprias autoridades locais recebiam uma grande quantidade de carne e estocavam grandes quantidades de açúcar.
Em nota na cronologia de Bela Cruz
O prefeito Raimundo Jovino de Vasconcelos, juntamente com seu vice Gabriel Assis de Araújo Vasconcelos e vereador Edílson Sampaio, consegue, com o dr. Luciano Garcia, Presidente do GESCAP, cinco toneladas de alimentos para os flagelados da enchente no município de Bela Cruz. (ARAUJO, 1990, p. 107).

Além da falha no repasse das doações, a cidade não tinha estrutura para abrigar as pessoas atingidas, muitos procuravam casas de parentes, casas de farinha particulares, ou mesmo desconhecidos que se disponibilizasse a ajudar.
Segundo Sr. Francisco foram 90 dias até que as águas baixassem e as pessoas pudessem retornar a suas casas e mais uma vez esperar pela variação climática ate ser forçados a sair novamente. De idade avançada o mesmo afirmar que ainda continua trabalhando com plantações e morando no mesmo local, nos fala que se tivesse condições sairia de sua casa e ia a procura de um local mais seguro, pois teme as próximas cheias.
Uma década depois mais uma vez se repete a história já muito conhecida da população ribeirinha. No ano de 1986
registra-se na cidade de Bela Cruz uma chuva de 144mm, ocasionando o desabamento de varias casas. O então prefeito Gerardo Wilson Araújo tomou as necessárias providencias, conseguindo acomodação, alimentos e remédios para os desabrigados. A imprensa de Fortaleza notificou a ocorrência. (ARAUJO, 1990, p. 122).

Dona Liduína, moradora da Rua Cap. Minguel Lopes, com localização também afetada, nos conta que teve que sair de sua casa, assim como em todas as outras enchentes, de situação financeira média, afirma que sempre se mudava para casas particulares e que por mais que tivesse sofrido o desconforto de ter sua casa alagada, acompanhava o sofrimento de varias pessoas menos favorecidas que a mesma.
Nos fala ainda, que nessa época o Instituto Imaculada Conceição, colégio particular, era abrigo para os afetados das cheias, assim como um deposito na Rua 07 de setembro cedido pela Prefeitura, a Escola Paulo Sarasate, e outros locais públicos.
Dona Maria Neves Araújo de 70 anos de idade, moradora da Rua Nicolau Peixoto, afirma ter tirado seus moveis no dia 31 de janeiro e só retornado no mês de março. As águas atingiram com grandes proporções mais não tanto quanto a ultima em 1974. A mesma afirma ainda que chegando o mês de março o inverno chegou ao fim, não tendo mais chuvas.  Ela continua morando no mesmo local e diz também não ter condições de se mudar, mas que teme uma outra enchente, diz sofrer muito cada vez que passa por alagamentos em sua casa, mais que não ver solução.
Na década de 90 houve alguns anos em que o rio Acaraú transbordou, mas dessa vez não atingiu a população belacruzense a ponto de terem que sair de suas casas. As águas chegaram apenas nas plantações mais próximas ao rio.
Chega o ano de 2008 e o inverno ameaça mais uma cheia em nossa cidade, áreas próximas como a cidade de marco foram atingidas com maior proporções. De toda forma, foram registrados danos humanos no que se refere aos desabrigados, a secretaria de ação social no repassa o numero de 2.834 pessoas afetadas, incluindo desabrigados, desalojados e deslocados.
A enchente de 2008 afetou apenas por alguns dias, e em seguida as pessoas retornaram a suas casas e as chuvas amenizaram. Porém no ano seguinte, 2009, a cidade de Bela Cruz sofre uma grande cheia, dessa vez comparada a de 1974. Em conversa com alguns entrevistados, os mesmo afirmam que a diferença entre os distintos anos, esta na quantidade de pessoas que moravam nas áreas ribeirinhas, que no ultimo ano (2009) havia um número bem maior.
Na zona urbana da cidade foram afetadas os seguintes locais: Nicolau Peixoto, bairro Centro, bairro areias. Na zona rural: Impueiras, Inguá Branca, Ilhas, Marquinhos, Araticus, Varjota, Barreiras, Ilha dos Rochas, Tabubas, Lagoa do Mato, Lagoa Seca, Correguinho, Guarda e Espinhos.
Com a grande proporção de inundações a perda na agricultura foi muito grande, foi necessário o abastecimento de água, as estradas danificadas impossibilitavam o transporte por muitos locais. A estimativa foi de 07 mil pessoas afetas, dentre 02 mortos, 10 enfermos, 125 casas danificadas e 30 destruídas. Os dados apresentados foram disponibilizados pela Secretaria de Ação social.
Tendo contato com todo esse material e ainda em conversa com as pessoas atingidas, percebemos que a cada ano é repetida a mesma história, apenas com um diferencial, a cada ano as cheias atingem mais pessoas, provocam maiores danos e as pessoas continuam no mesmo local, sem ao menos uma esperança de mudança.
A maioria dos idosos que acompanharam desde 1963, ou mesmo desde 1974 como é o caso do Sr. Francisco, continua até os dias atuais no mesmo local e afirmam que desejam sair se assim tivessem um outro local para morar, no entanto nada se resolve, e a cada ano com o aumento das chuvas, elevando o nível dos rios, lagos, riachos, a água percorre por toda a área ribeirinha caminho em que estão fixadas um grande numero de moradias e que nem assim deixa de ser travessia da água.